segunda-feira, 19 de maio de 2008

conto

Te conheci e achei que te conhecia. Ledo engano. Você estudava fotografia comigo. Depois, de cabelos vermelhos, beijava o homem aranha de cabeça para baixo. Comprei dos seus cabelos castanhos o anel que tenho no dedo. Era um período em que não só meus dedos estavam nus. Todo estava. Não hesitei. Não sei se pelo dourado do ouro ou por você, naquela época, estar incompleta. Completei. Hoje, de perto, vejo que seus cabelos são escuros, quase negros e brilham contrastando com a sua pele leitosa, tranqüila: uma boa combinação pictórica. Não me confundi de todo. Já vi você como campeã de tênis, amando um ator. Mas seus cabelos eram loiros? Seus dentes são lindos. Me lembrava deles sempre desencontrados e me mantive distante. Não tinha outra solução. Agora ima, rima, anima... Descubro que você é macaco e vive cercada de quatro “gatos”. Me entristece e alegra. Fotografias de uma paris imaginária, tripés e câmeras, varanda e sorvete de abacaxi, que descasco o enigma, mistura fritas com biscoito doce, suco de uva e muita água. Aguado e mudo, mudo o roteiro e vou direto para o zen. Você me faz bem.
13 de aquário de 2008

sábado, 17 de maio de 2008

conto

Três crianças e uma mãe comem sanduíches ao meu lado. Ela chega, me beija e volta para sua loja de imóveis, recebendo móveis. Um homem de vermelho comenta a camisa preto e branco botafogo e a menina do meio diz que é vasco e que seu irmão pequenino é flamengo. Estamos na barra e a barra no hospital está pesada. Vim de lá. Cuidava de pacientes e agora estou esperando para cuidar de outro. Germana está bem, sua mãe ruth já está desentubada. Pago o café que tomei, atravesso a praça e sento no banco largo, de madeira, onde conversamos em yoga. Pierre Louis corta cabelos em frente, faz unhas, massageia o ego dessas mulheres que não param de querer ser sempre mais belas. E conseguem. Penso na pintura da andréa, nos seus olhos que falam, reforçados pelo próprio falar. Marie-laure, qual é o seu nome de escritora? Pergunto. Quero ler o que você escreve, falo para o vento e, não consigo resposta. Ela está ocupada escrevendo seu último livro. Não é último, último. É último porque é o último que ela escreve. Depois vem mais. Quero vê-la, conhecê-la, saber dela. Daniel falou tão bem que deu vontade: vou te arranjar uma namorada. Você é feliz mas está muito só. Vai gostar de conversar com marie-laure. Ela é francesa, como você e escritora. Mas eu não sou francês, repico. Apenas vou voltar para paris que é o meu lugar, replico. Você entendeu o que eu disse, diz ele. Além de tudo ela é bela e dois franceses que não bebem vinho é raro. Só podem se dar bem. E ela? Pergunto para mim mesmo. Levanto os olhos para pensar e Pierre Louis faz sobrancelhas. Olho em volta e as crianças agora tomam suco de laranja, uma delas, no colo do motorista que veio render a mãe, enquanto ela leva a camisa do botafogo para fazer pipi. A mãe volta sem a camisa e todos vão embora nas minhas costas. Será que botofogo? O tempo fecha, o sol desaparece e eu que troquei o pé de pitanga por cerejeiras. Ela, de longe me chama para lá e eu a chamo para cá. São cinco e meia e esse prá-lá-e-prá-cá ainda tem trinta minutos para terminar. Isso se tudo se cumprir. Cedo e vou.